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1ª parte

O tempo está a esgotar-se... Neste preciso momento em que você lê este artigo,milhares de pequenos insectos “invisíveis” devoram lentamente as majestosas palmeiras do Algarve – símbolos da nossa indústria turística. Em Alvor, Portimão, Albufeira, Vilamoura e em muitas outras áreas várias árvores já foram destruídas. E os especialistas acreditam que “nos próximos três anos, centenas, senão milhares de árvores do sul do País terão a mesma sorte”Em Novembro realiza-se em Reno, Nevada um simpósio internacional em torno da ameaça global da doença do anel vermelho das palmeiras (termo latino: Rhynchophorus ferrugineus). Bem longe do Algarve, mas a praga que tem vindo a afectar a região é um dos principais pontos de agenda: Portugal é uma das mais recentes áreas a ser afectada pelo insecto implacável que chega a permanecer todo o seu ciclo de vida escondido no interior de uma árvore hospedeira. Os entomólogos, investigadores e algumas estufas têm soluções... o problema – quase maior que a ameaça em si – está a levar os governos e autoridades locais a agir de forma efectiva para pôr termo à morte destas árvores. “Todos se recusam a aceitar a gravidade desta praga e têm adoptado uma orientação baseada na ignorância da realidade, contou ao vivalgarve Michel Ferry, director científico da Estação de Pesquisa de Palmeiras e Sistemas de Produção em Oásis de Elche, Espanha. Há mais de uma década que Ferry anda a investigar formas de combater o anel vermelho das palmeiras. “A situação é a mesma por toda a Europa, mas talvez pior em Portugal onde se sabe que o anel vermelho está presente há mais de um ano. Infelizmente, esta realidade só foi oficialmente declarada há poucos meses” “Em locais como este, onde a informação é escondida desta forma e onde as palmeiras infectadas não são detectadas e submetidas a tratamento, a praga é capaz de destruir milhares de palmeiras no espaço de um a dois anos” Na vizinha Andaluzia, por exemplo, só neste ano, mais de 10.000 palmeiras foram destruidas no seguimento de uma política de controlo do Governo que envolve o abate das árvores infectadas e não a tentativa de recuperação. O engenheiro agrónomo Mauro Aguiar, responsável por um dos principais viveiros de palmeiras do Algarve explicou que o desastre espanhol deveu- se às “más políticas” e acrescentou que “em Portugal estão a acontecer problemas semelhantes”. Para Mauro não há dúvidas de que nos póximos anos haverá grandes casualidades a registar nas palmeiras portuguesas. “Será certamente a pior das pragas que já sofreram. Vão perder-se muitas árvores. Nos próximos dois a três anos, a paisagem aqui poderá ser completamente diferente, contou-nos. “Primeiro que tudo, claro que estamos extremamente preocupados pois o nosso negócio são as palmeiras. Mas chegámos à conclusão de que, pelo menos de momento, apenas uma espécie está a ser afectada por este insecto – a palmeira das Canárias, ou Phoenix canariensis. Nós tornámo- nos agentes exclusivos da companhia que produz o tratamento mais eficaz até à data – e estamos muito mais calmos agora. Uma coisa que não estamos a fazer é a lidar demasiado com a Phoenix canariensis!” Por outro lado, o ambientalista António Lambe tem vindo a estudar a matéria independentemente. Conhecido pelo seu interesse por esta área, foi mandado chamar por Manuel Rodrigues, director de parques e paisagens da Câmara de Silves, depois de várias palmeiras deste concelho terem sido infectadas e fez uma listagem chocante de espécies hospedeiras. Não é certamente apenas a Phoenix canariensis que está em risco, embora esta seja a principal vítima. Existem mais de 32 espécies hospedeiras, incluindo as mais usadas nos jardins: Washingtonia robusta, Washingtonia filifera e as palmeiras-anãs, Chamaerops humilis. “Não estou a tentar vender nada. Estou simplesmente a tentar promover a consciência e a acção”, explicou o ambientalista. “O anel vermelho das palmeiras chegou à Europa há 15 anos atrás – contudo, só em Maio do ano passado é que Bruxelas finalmente decidiu adoptar “medidas de emergência” para prevenir a sua introdução na comunidade. Há anos que gerações de insectos estão activas em cada um dos principais países da Europa mediterrânica!” Lambe já começou a angariar apoios das autoridades nacionais e também de Bruxelas para pesquisa e tratamento/prevenção e ajudas de custo. Actualmente, um tratamento efectivo de uma árvore doente pode ultrapassar os 450 euros – um preço demasiado elevado para muitas carteiras. Mauro Aguiar explicou que complexos turísticos de 4 e 5 estrelas como o «Four Seasons Resort», em Almancil e próximo da Quinta do Lago podem perfeitamente pagar o custo dos tratamentos – particularmente porque a substituição das árvores sair-lhes-ia mais cara. As autarquias locais/proprietários privados nem sempre partilham da mesma opinião e, claro, é aqui que reside outro problema: estes insectos não serão completamente erradicados, a menos que todos ajam de forma a proteger estas árvores. Nos viveiros da Flor do Sol, Portimão, Mauro Aguiar aconselha todos os que têm a possibilidade de tratar as suas árvores, a fazerem-no de ano para ano independentemente de quaisquer sinais de infestação. António Lambe, contudo iria discordar. As suas investigações levaram-no a chegar a várias conclusões que está a reunir num folheto para ser distribuido pelos centros de jardinagem, para ajudar a combater o Rhynchophorus ferrugineus e salvar a lendária paisagem tropical algarvia. Na próxima edição, damos-lhe a conhecer quais os sinais de perigo a identificar nas palmeiras – e vamos dar-lhe alguns pormenores dos tratamentos mais eficázes que estão disponíveis. Segundo o que Mauro Aguiar explicou ao vivalgarve, os investigadores estão a trabalhar arduamente para encontrar a “bomba para acabar com todas as bombas” desta praga, pois actualmente os tratamentos químicos apenas servem para cada infestação. E não previnem infestações no futuro. “A solução no final terá que ser biológica”, explicou. “E, posso garantir-lhe que as empresas estão a correr umas conta as outras para serem as primeiras a conseguir encontrar a solução”.

2ª parte

O anel vermelho das palmeiras (termo latino: Rhynchophorus ferrugineus) teve origem há mais de um século atrás no Sudeste asiático e na Melanésia. Chegou pela primeira vez ao sul da Europa nos anos de 1980 – quando descobriu os prazeres de duas espécies ubíquas de palmeiras: Phoenix canariensis e Phoenix dactylifera, que parecem ser as preferidas entre todas as potenciais palmeiras hospedeiras. Estas são as primeiras “boas notícias”, pois as pessoas podem assim concentrar-se nos programas de prevenção destas palmeiras, antes de darem importância a outras. Porém, é mais uma vez aqui que reside o problema: a Phoenix canariensis existe por toda a parte – e uma das maiores dificuldades é conseguir controlar este insecto que pode ficar alojado no interior da árvore hospedeira durante todo o seu ciclo de vida: desde o momento em que a fêmea põe os seus 300 ovos, ao momento em que emerge da sua pupa um besouro completamente adulto e castanho-avermelhado, com asas e capaz de voar distâncias consideráveis. Estes insectos sentem-se confortáveis durante toda a vida no interior de uma mesma árvore mas se esta morrer, mudam-se para outra palmeira. Outro grande problema é o período relativamente longo entre a infestação e o surgimento dos primeiros sintomas de que algo corre mal – contudo, ao mesmo tempo é bastante curto o período entre o aparecimento dos primeiros sinais de alarme e a fase em que a árvore é incapaz de recuperar. “É tudo uma questão de controlo” explicou ao vivalgarve Mauro Aguiar, engenheiro agrónomo e especialista em palmeiras na «Flor do Sol», um dos principais viveiros de árvores do Algarve, situado perto de Portimão. “Se os proprietários estiverem atentos aos sinais de alarme, é quase sempre possível recuperar a árvore. Mas é preciso chegar a tempo.” Sinais de alarme Os sinais de praga incluem: • Queda de folhas e ramagens partidas vindas da coroa da árvore. • Buracos no tronco com o diâmetro de um dedo – geralmente perto da coroa ou da base das ramagens. • Odor desagradável a vegetação podre e líquido castanho e viscoso a sair dos buracos na superfície do tronco. Tratamento O tratamento deve ser feito duas ou três vezes e segundo a «Flor do Sol» pode também ser utilizado de ano para ano como meio de prevenção (é quase o mesmo que ter um cão de estimação e levá-lo regulamente ao veterinário para prevenir doenças como a parasita do coração): Há dois tipos de pesticidas a aplicar de diferentes formas: • Os pesticidas de contacto são pulverizados sobre as folhas (para eliminar os insectos, ovos e pupas que possam existir à superfície) • Os pesticidas sistémicos são absorvidos pela árvore e incorporados nos seus tecidos; são injectados no tronco para acabar com as larvas. Os especialistas defendem que cada árvore deve, pelo menos, ser submetida a dois tratamentos. Mas alertam que os tratamentos só são eficazes durante um determinado período de tempo. Uma árvore que tenha sido infestada e depois curada, facilmente poderá voltar a ser infestada. “É importante transmitir a ideia de que esta praga é controlável mas para tal, a mesma estratégia terá que ser adoptada por cada um dos proprietários”, explicou o cientista Michel Ferry, a trabalhar em Espanha. “Não faz sentido que uma pessoa trate das suas árvores e o seu vizinho não”. (Recorde-se que só neste ano, perderam-se 10.000 palmeiras na Andaluzia, devido ao anel vermelho. Há ainda dois métodos mais simples de proteger as árvores – sem recurso a químicos. • 1o a armadilha para insectos, que consiste numa caixa larga com aberturas laterais e uma cobertura superior onde se prende o isco – a ideia é que os insectos sejam atraidos pelo odor do isco (mais do que pela palmeira mais próxima) e que depois caiam numa mistura líquida e pegajosa na base da caixa e se afoguem. • 2o uma espécie de poda “relaxada”: tendo em conta que estes insectos são atraidos pelo odor, a poda pode actuar como um pano vermelho que lança a fúria do touro. O ambientalista António Lambe – grande defensor dos métodos de prevenção sem recurso a químicos – recomenda que se deixem as ramagens inferiores secar antes de serem removidas, ou que estas sejam cortadas a uma distância não inferior a um metro do tronco. “Os pesticidas não são a solução de último recurso”, avisa. Para além disso, os tratamentos são dispendiosos. Tratar uma árvore doente pode custar entre 350 euros e 450 euros. Actualmente, Lambe está a preparar um folheto para ser distribuido em breve pelos centros de jardinagem e viveiros. Também tem estado a angariar o apoio dos governos/União Europeia para combater esta praga, sustentando que os subsídios são necessários para financiar o tratamento/prevenção e pesquisa. Infelizmente, até agora a resposta tem sido “insuficiente e chegado demasiado tarde”. Porém, Lambe tem vindo a persuadir a Comunidade Europeia a criar um website para tornar as informações acessíveis ao público nos principais idiomas. “O perigo que este insecto representa só poderá ser ultrapassado se os esforços forem concertados em todas as áreas. A praga ainda é bastante recente em Portugal. Temos a oportunidade de aprender a partir dos erros dos outros e não podemos desperdiçá-la”, conclui.